Contar uma estória através do Design nos mostra o que é preciso compreender para entender as regras básicas de comunicação para que os outros entendam a mensagem visual.
Histórias em quadrinhos, livros ilustrados, storyboards, filmes, gráficos ilustrativos de matérias, mídias de internet, celular e todas as mídias antigas, atuais e futuras. Tudo se inicia por quais clichês vamos destacar e onde estará o desatar do nó da estória.
Toda lenda tem grandes clichês e um dos principais destes é a lenda do rei que envia seu guerreiro para salvar sua musa do inimigo. É a velha estória do mocinho versus bandido, o supra-sumo da moral do bem contra o mal.
Quantas avós ensinaram o que é bem e o que é mal através destas velhas estórias de ninar… Mas esta lenda é tão antiga, tão arraigada à nossa cultura humana, que é muito mais que um clichê ou uma estória de vovó. E por assim ser, é utilizada para o sucesso de todo tipo de atividade atual: filme, livro, poesia, literatura, etc. Todos se rendem aos encantos da estória do mocinho versus bandido.
Onde se calçam os motivos desta estória nos chamar tanto a atenção? Quais as conseqüências no fundo de nossas almas? Por que funciona tão bem nos sentimentos das massas? Por que nos emotiva, nos dá coragem, nos faz chorar, nos faz rir, nos trata como uma marionete em seus mecanismos?
Observar para entender: questionar para compreender. O que nos chama a atenção? Arrisco afirmar que a origem do fato de nos chamar tanto a atenção encontra-se numa palavra: proteção. Proteção é o que move o instinto materno, move o próprio instinto de sobrevivência, é o motivador de grandes guerras.
Mas ai surge a pergunta básica, perceba, já estamos observando e adentrando no âmago da questão: o que protegemos? Ah, esta é a grande questão. O que?
Na lenda do guerreiro, um rei lhe ordena salvar a musa que foi raptada pelo inimigo. A musa é o motivo da coragem do guerreiro e a motivação perfeita para sua ação, levando-o na tentativa de salvá-la e protegê-la do inimigo. Todos querem proteger a musa, até mesmo o inimigo, porém este quer ela para si e a protege dos demais. O guerreiro quer protegê-la e também a quer para si. O rei quer resgatá-la e entregá-la a quem melhor a proteja.
Mas, e a musa, o que quer? Ah, mais uma questão fundamental. É na escolha da musa que reside o final feliz desta estória. Que escolha? Simples. Por quem a musa quer ser protegida? Isto se torna até engraçado, pois como a lenda teria um final feliz se a musa não estivesse satisfeita em estar sendo salva pelo guerreiro? E se a decisão da musa fosse outra? Se ela quisesse estar com o inimigo? Esta decisão cabe a ela e é fundamental para a lenda, pois é a própria direção da conclusão da estória.
Algumas molas secretas pouco observadas nesta lenda também são interessantes, como o caso do rei, ou, se melhor preferirmos, o emissário, aquele que emite a ordem ao guerreiro para salvar a musa do inimigo. Não é o guerreiro que resolve salvar a musa por si só, ele é escolhido e ordenado pelo rei. Foi este que descobriu que a musa foi raptada e pede ajuda ao guerreiro. É um clichê estranho, mas funciona perfeitamente, porque encontra analogia nas mais diversas pessoas, nas mais diversas matérias, nas mais diversas áreas.
Então vamos à proposta deste post, qual é a analogia? Pra recordar a todos, analogia é quando algo está simbolicamente escondido por códigos, quando descobrimos o código cifrado, descobrimos a que corresponde cada símbolo, ou seja, cada símbolo está ligado por analogia ao seu verdadeiro significado.
Nesta analogia, o rei ou emissário é a Consciência. A musa sequestrada é a Inspiração. O guerreiro é a Observação. O inimigo é o sentimento de “tudo saber” que se originou pelos resultados adquiridos ou estudos realizados.
Na lenda, o rei ou emissário convoca o guerreiro para salvar a musa sequestrada pelo inimigo.
Na analogia decifrada, nossa consciência convoca a observação para salvar nossa inspiração sequestrada pelo sentimento do “sabe-tudo”.
E a vontade da musa na lenda? Quer ser salva do inimigo. Ela quer seu guerreiro e aceita o ideal de busca deste, que no fim é ela mesma, e nega o inimigo que também a quer, porque acredita que este vai corrompê-la.
Na analogia? Nossa inspiração quer ser salva do sentimento de “sabe tudo”. Ela quer o sentimento de observação e aceita o ideal de busca deste, que no fim é a própria inspiração e nega o sentimento de “sabe-tudo” que também a quer, porque acredita que este vai corrompê-la.
Lembre-se que na lenda, depois de salva a musa casa com o guerreiro e vivem no reino doado pelo rei a estes. O inimigo? No melhor estilo Capitão Nascimento: morre.
E cada um de nós no Design? O que realmente queremos? Qual é nossa musa inspiradora, qual o motivo de guerra de nosso guerreiro e quem o criou, qual rei o chama para salvar a musa? Quem é o inimigo? Será que atualmente não estamos invertendo os papéis desta analogia? Talvez estamos amando o inimigo, matando a musa, acovardando o guerreiro e destruindo o reino do criador.
“Quem é o inimigo, quem é você? Nos defendemos tanto, tanto sem saber porque lutar…” (Soldados – Legião Urbana).
Design, além de visual, é entender o contexto onde ele está aplicado.
Abraço e até a próxima.
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Execelente Post. O mesmo foi escrito com uma linguagem como nunca tinha visto ainda, ou seja, dotada de um idealismo que só me cabe parabeniza-los por este e outros posts também. Gostaria de saber se posso publica-lo em meu Blog e fazer um linck com o seu?
Grato.
guia Reply:
fevereiro 5th, 2010 at 1:57
@Antonio Picoral, Pode sim, desculpe a demora.